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Arte: Vitor Farias | @vitorf.png Arte: Vitor Farias | @vitorf.png | março de 2026

Amante difícil é um filme que ainda demoraremos a assimilar. Isso porque ele se diferencia em absoluto de todos os outros longas exibidos na Mostra Olhos Livres (dentro da 29ª  Mostra de cinema de Tiradentes) assim como apresenta uma série de descontinuidades em relação aos trabalhos anteriores do diretor João Pedro Faro e de sua produtora MBVideo. Em sua primeira imagem, Amante difícil é o quadro de Debret intitulado “Execução da punição do açoitamento”, datado do ano de 1835. Enquanto um preto ergue em riste o chicote, outro está amarrado e prestes a receber a agressão. Conforme consta na descrição, o quadro retrata sobretudo escravizados e uma dupla de corpos que jazem mais à direita nos chama a atenção. Se não nos chamava a atenção, o movimento de corte empreendido na montagem faz o trabalho de direcionar nosso olhar. Há dois corpos que situam-se no chão. Na banda sonora ouvimos um barulho de carro. No que se segue, vemos dois corpos de um casal de pessoas brancas, distendidos na areia, um frente ao outro. A natureza do som muda frente à nova imagem: ouvimos os instrumentos de sopro que entoam um hino – Abide With Me. Uma matriz sonora instável será tentada a seguir o caminho harmônico, mas cederá às vielas do ruído.

Nessa primeira sequência de imagens, Faro mostra um de seus modos composicionais: o da refração. Ainda que a posição dos corpos em cada imagem seja parecida, as pessoas brancas passam por um desvio de trajetória em relação às pessoas pretas – da tortura ao lazer. Uma mesma matriz imagética é alterada conforme adere a diferentes meios, estamos diante de uma dobra sintática, que não cessará de insinuar sentido, tampouco chegará a uma síntese estável. Em um primeiro momento me pergunto pelo que permanece o mesmo durante o filme. A imagem do casal frente a frente, dá lugar a um tableau vivant. A atriz Joana Liberato é frontalmente enquadrada, seus cabelos flutuam conforme o vento. Essa paixão pelo rosto proximamente recortado emerge algumas vezes, mas trata-se precisamente de uma paixão: algo que tem uma emergência fugaz e decisiva mas não chega a se estabelecer. A maioria das tomadas é externa e capturam o corpo do ator Miguel Clark em deambulação noturna. A voz off tem uma impostação muito própria, parece duvidar de si e enumerar fatos aleatórios, sem uma ordem de precedência. Quem aparece como causa primeira do movimento do protagonista é a ex-namorada, encontrada na rua. Miramos a esse encontro primeiro de maneira mediada, desde a fresta de uma janela enquadrada de cima para baixo, a cor preta invade quase todo o quadro, nossa atenção adquire uma angulação muito específica.

Os jogos de reenquadramento dentro do próprio quadro são uma estratégia recorrente. Para que o Rio de Janeiro ganhe ares de labirinto, ou a própria casa da namorada do protagonista, inscrevem-se em cena esses outros contornos, esses outros quadros. E aqui o quadro pode se distender em sua mais plena ambivalência: no quadrinho das HQ’s, suporte importante dentro do trabalho de Faro como pronunciado em Extremo Ocidente (2022), ou na mais límpida obsessão pelo rosto de Miguel Clark, com seus olhos obtusos e suas duas mini circunferências cravadas bem no início dos ossos nasais. As técnicas do storyboard aparecem mais que assinalas na maneira como se desenrolam os planos: a cada enquadramento vemos o suceder de uma única ação, os quadros são quase sempre fixos.

A variação entre os elementos endógenos e exógenos ao labirinto são de grande importância para a qualificação do espaço. Há ao mesmo tempo a citação de elementos esotéricos, como são os símbolos desenhados em giz pelo asfalto e os brasões ocultistas que invadem a tela mais ao final do filme; e a insistência nos elementos profanos da arquitetura do Rio de Janeiro, como é a ladeira em Santa Teresa, os prédios da Lapa, o ônibus em que Miguel volta à casa da namorada. A combinação dessas duas distâncias nos oferece talvez o que há de mais borgiano na composição do filme, e se expressa nas seguintes afirmações: 1. “Para quem verdadeiramente quer ocultar-se, o Rio de Janeiro é melhor labirinto que um observatório para o qual se dirigem todos os corredores de um edifício.” 2. “[…] a solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e até do divino; a solução da prestidigitação.” A lide corpo a corpo com o mistério é talvez o que faça Faro reformular suas táticas expressivas, que não se resumem ao mero gesto iconoclasta; a evocação de um ou outro tipo provindo do cinema marginal; o desenvolvimento mais radical em relação a sua obra até então seria a metamorfose operada na matéria sonora de Amante Difícil. Não há mais heavy metal como em Sombra (2021), nem Sérgio Sampaio entoado à capela como em Paixão Sinistra (2023), não resta ao menos o João Gilberto anticlimático como ao fim de Extremo Ocidente (2022). Junto à metamorfose sonora, outro desejo: o do enigma encarnado.

A nova impostação sonora se deixa descrever como hiper-diegética, pois não é que as personagens se restrinjam a experienciar a trilha como nós espectadores, mas a matéria sonora é transformada em dado visual. Desponta já no início do filme uma longa sequência de improvisação musical, em que somos lançados em meio à penumbra a alguns indícios de fonte sonora: vemos o braço de uma guitarra, depois quase todo seu corpo, tais imagens são permutadas em um fluxo com outras, a do rosto de Clark, do cabelo black de uma outra pessoa que toca guitarra, da flauta, da interface de um software de produção musical, e em um aceno ao tipo de contraste, ou para voltar a essa palavra, ao tipo de refração que compõe Faro, vemos uma estatuazinha de Ganesha em meio a dois amplificadores. A menção à espiritualidade hindu ocorre sempre a partir de uma ambiguidade que perpassa a maneira do diretor mobilizar o conteúdo citacional, alternando entre paráfrase e paródia. Os signos são deslocados em relação ao seus referentes, mas não sabemos ao certo qual caráter eles adquirem dentro da nova estrutura em que estão localizados. Ao limpar a sujeira do apartamento da namorada, Clark dá um raio, e, para matizar toda essa atmosfera um tanto quanto jovem, de um caos a perder de vista, das garrafas e lixo espalhados, do cozer de um miojo, na televisão ao fundo vemos gurus fazendo yoga enquanto entoam mantras. É a partir dessa junção de diferentes escalas, do arranjo de signos, que percebemos que tais partes só podem adquirir significados a partir do comentário. E é nesse sentido que podemos falar de um mundo próprio ao filme, em que esses elementos compõem um todo e fazem como que um comentário um em relação aos outros. Não sabemos se adquirem uma distância crítica e risonha, ou se deliciosamente aderem às suas conjugações improváveis.

Para além dessas formas outras de significar, Faro materializa o enigma. De maneira diferente dos filmes anteriores, onde parecia haver antes uma incapacidade enunciativa, um certo niilismo, a condição que adentramos em Amante Difícil é por excelência pós-niilista. Têm-se certeza da possibilidade d’o fazer sentido, o sentido se faz em verdade nas formas mais inimagináveis e ao mesmo tempo mais imaginativas, como são as quimeras que despontam em vários planos, esses humanóides cobertos de pano, autodeclarados enigmistas. Facilmente podemos considerar a diferenciação expressa pelo primeiro enigmista como uma chave de leitura para o filme: “ilusionismo é um truque que acontece quando você está distraído e o enigma é o que se revela quando você está prestando muita atenção.” Ainda que Amante Difícil possa ser tomado como uma sucessão de enigmas, o extracampo parece motivar todo o arco deambulatório de Clark. Há precisamente uma transcendência que não se deixa domesticar, e ainda que seja a força motriz da andança, não se inscreve jamais no plano. É o próprio encontro de Clark com o enigma que insinua algo que está além das possibilidades de nosso stalker, o enigma devolve-lhe o olhar, e impede que o seu narcisismo se feche. Clark se vê sendo visto pelo enigma, algo que intervêm na possibilidade de autopercepção plena. Não é o andarilho que olha as coisas, mas elas, precisamente, que o olham, e descentram a sua mirada. Fica a pergunta: todo o percurso tem como fim uma descoberta do nível transcendente ou o encontro amoroso? Qual é a relação entre essas duas possibilidades?

Sem alcançar uma resposta definitiva, promessa sempre impossível, como nos mostra Amante difícil, o caminho até o beijo insinua que não há possibilidade de olhar ao eterno, ou de encontro com o amor, que não perpasse as desventuras didáticas do labirinto. Uma vez que as vociferações sobrepostas no áudio não nos deixam entender o que está sendo dito, assim como a lide corpo a corpo com os enigmas produtores de sons, que chega a um certo ápice quando nas ladeiras de Santa Teresa Clark encontra um enigmista que toca saxofone e conduz-lhe ao encontro derradeiro com o suprassensível, o processo até a certeza da luz do dia, do imperativo de volta à casa, do beijo, enfim, não pode ter lugar senão depois do atravessamento da zona de obnubilação ontológica dos ruídos. O rigor dos planos estáticos é também posto em xeque, a volta do andarilho é filmada com a câmera na mão em sua mais plena oscilação, emergem os acordes de uma música folkAin’t Got No Honey Baby Now – como que evocando todo um imaginário ausente até então, do final bem sucedido de um roadmovie, ou seria melhor dizer walkmovie, ou ainda stalkmovie? Clark tinha afinal sobrevivido, ainda que não soubéssemos bem ao quê. Nos últimos instantes do filme, somos novamente convidados a adentrar o ambiente de intimidade da casa da namorada. A primeira cena tinha sido estendida ao infinito potencial do que não sabemos, até as áreas em que o sentido parecia rarefeito ao limite, o som vivia suas maiores aporias, para que pudéssemos enfim encontrar algo como a harmonia, como o beijo: o maior dos constructos cinematográficos, assim como a menor miniatura ao amor. Não resta dúvida, Faro eclipsa o filme para fazer aparecer o cinema.

Sem mais voltas, já que o labirinto chega próximo de seu fim, me pergunto, por que Amante Difícil não é o vencedor da mostra Olhos Livres da Mostra Tiradentes 2026? Como considerar um convite tão direto a um outro olhar e desviar, para justamente premiar Anistia 79 (Anita Leandro, 2026)? Tínhamos diante de nós a oportunidade de ascese ao paroxismo sinestésico, aquele convite descrito por Jairo Ferreira, o de ouvir com os olhos livres. Não deixo de lado o rigor formal do filme de Leandro, que a partir de filmagens encontradas de um julgamento de presos políticos em favor da anistia cria uma relação espectatorial peculiar. A forma campo-contracampo é reelaborada a partir do abismo de 44 anos, as personagens assistem a si ou a pessoas próximas no julgamento desde o presente e inscrevem-se em cena. Alguns são incapazes de reconhecer a si nas imagens de arquivo. A relação espectatorial é ao mesmo tempo triangulada e planificada, pois nós também assistimos àqueles rostos no julgamento. Trata-se sim de uma elaboração muito própria das cabeças falantes. Não obstante, podemos perceber a emergência de uma outra dinâmica interessante: o olhar técnico dos pesquisadores muitas vezes não percebe aquilo que as testemunhas são capazes de ver nas imagens de arquivo, a pesquisa e o testemunho produzem dissonâncias… O que temos a dizer da relevância política de Anistia 79 ? Como poderíamos de alguma maneira coerente fazer frente ao seu enunciado, e mesmo à maneira sagaz como trabalha suas formas? A aposta do Júri Oficial é que não podemos. Mas talvez restem ainda algumas derradeiras perguntas: o que significa premiar Anistia 79? Por vezes, me parece ser uma renovação com um certo pacto narcísico: o da certeza de nossa emancipação política.

O público se revolta com Amante Difícil. Há quem diga que é um filme fascista ou que apresenta uma grande ansiedade racial. O caminho para fazer filmes seria então seguir um certo ideal de perfectibilidade, em que toda a nossa confiabilidade moral fosse verificada. Os problemas que qualificam o território do nosso país, ou mais especificamente o do Rio de Janeiro, seriam guardados na gaveta para que pudéssemos pôr em tela o esperado, aquilo que devíamos fazer dado o nosso processo de elaboração cognitivo-histórica. Desconfio, entretanto, que essa não seja a grande questão das imagens, nem daqueles que acreditam em sua soberania. Como arena de rarefação ontológica por excelência, o cinema nos reservaria um outro modo de referenciar o real. Haveria exatamente a possibilidade de modulação, ou antes sua condição de possibilidade seria um real modulado, afinal, como nos lembrou Alana Falcão em um dos debates de Tiradentes a literalidade é um paradigma impossível. Muito ciente de não saber de tudo, Amante Difícil nos convida antes a firmar um pacto com as sensações, e sobretudo com aquilo que ainda não sabemos. A olhar o que estava lá, mas que tinha se perdido em meio à grande máquina do mundo. Jamais poderemos nos furtar a ver o eterno no prosaico.

 

 

 

Helena Elias é mestranda na linha de Filosofia Contemporânea da UFMG. Escreve crítica de cinema e programa o Cineclube Comum.

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